Razes Filosficas e Fisiolgicas
da Psicologia
imos no captulo anterior que Scrates (470 a.C.-399 a.C.) inseriu no pensamento da 
humanidade uma filosofia da sabedoria. Esse ato de conhecer, presente na apreenso do 
conceito, englo bava virtudes tais comojustia, coragem, beleza, direito, etc. Vimos 
tambm que Plato (428 a.C.-348 a.C.) descreveu o homem necessariamente cons titudo de 
um organismo, por isso ele pensou algumas funes psquicas e orgnicas, acentuando a 
fora determinante da alma dotada do verda deiro conhecimento. Aristteles (384 a.C.-322 
a.C.) estudou imaginao, memria e sonhos e enfatizou sua tendncia racional, seu 
exerccio ao pensamento. Segundo ele, uma vida conduzida de acordo com a razo assegura 
a felicidade. Temos ento que a forte determinao animista arraigada  fora do destino e 
caracterstica do pensamento mtico foi sendo obnubilada pela razo e pela subjetividade, 
muito embora as manifestaes mticas se expressem como rituais e expresses primitivas 
tanto no sujeito individual quanto nas sociedades.
27
 Psicologia: Das Razes aos Movimentos Contemporneos 
Vamos, entretanto, caminhar mais um pouco na linha do tempo, buscan do compreender a 
fora da dialtica corpo-alma na construo das teorias
que subsidiaram a Psicologia.
3.1 Filosofia e Medicina na Antigidade
Gostaria que voc se localizasse no longo perodo que vai do sculo III a.C. ao sculo III da 
nossa era. Esse perodo  chamado Antigidade e nele ocorreu a apropriao da cultura 
grega pelos romanos por todo o mundo mediterrneo (fenmeno histrico- social chamado 
helenismo). Na verdade, as conseqncias produzidas pelas expedies de Alexandre 
geraram uma crise profunda nos valores que os filsofos clssicos tentaram plantar entre os 
gregos. Suas mensagens se fecharam dentro das suas prprias Escolas e nos deparamos com 
o esgotamento, tanto das escolas socrticas quanto da Academia e do Liceu.
Esse recolhimento foi dando espao para novas linhas de pensamento sobre o homem que 
tentavam dar conta do sentido de ser um indivduo dentro de novos valores sociais  de 
cidado ele passava a ser sdito , tendo que exercitar a convivncia com os brbaros.
Nesse contexto surgem ncleos filosficos, tais como:
1) O epicurismo  Primeira das grandes escolas helensticas, fundada por Epicuro, em 
Atenas, em 307/306 a.C. Sua preocupao com a tica fundada no prazer e no afastamento 
da dor merece ser pontuada.
Epicuro no concordava com Plato nem com Aristteles. Ele viveu em uma poca, cujos 
valores ticos e morais tinham sido colocados em crise pela revoluo de Alexandre e o 
cidado ateniense percebia-se esvaziado e confuso.
O pensamento de Epicuro aponta para o homem individual, ou seja, para a virtude do 
homem privado, fora da convivncia dentro de um Estado. Ele praticamente cria uma 
anticultura atravs de suas 300 obras e da fundao de um lugar chamado O Jardim, onde 
aconteciam as discusses filosficas: critrios de verdade, a validade da sensao, sentido 
do prazer e da dor, da opinio, sobre a Fsica, sobre a imortalidade da alma, sobre a tica, 
fundado no prazer e na sabedoria.
28
 Razes Filosficas e Fisiolgicas cia Psicologia  Com relao  idia do prazer, 
Epicuro diz que no pode ser nunca,
necessariamente, um mal, dado que mal s  a dor.
Para ele o no-sofrimento do corpo  prazer e a no-perturbao da alma tambm  prazer e 
garantem a felicidade; muito embora, a vida moral no  dirigida pelo prazer, mas pela 
razo, pelo raciocnio, pelo clculo aplicado aos prazeres. Isso depende da sabedoria que  
a virtude suprema.
Segundo Reale (p. 212),  preciso distingir 3 classes de prazeres:
a) Prazeres naturais e necessrios;
b) Prazeres naturais, mas no-necessrios;
c) Prazeres no naturais e no-necessrios.
Na verdade, o homem feliz deve saber escolher sempre prazeres que
neutralizem a dor e reduzam a perturbao do esprito.
O pensamento de Epicuro encontrou eco em Roma atravs de seus discpulos e em forma 
de poema filosfico, inspirando o poeta Lucrcio.
[ a alma no se distingue do corpo a no ser por uma maior sutileza dos elementos 
componentes [  alma cabe difundir a vida pelo organismo e permitir as atividades 
intelectuais [ condicionadas pela unio entre alma e corpo, o que prova a materialidade da 
alma. (Muiler, p. 54)
2)0 estoicismoFundado em 312/311 a. C. por Zeno que foi influenciado
pelas discusses geradas no Jardim de Epicuro .
Para Zeno e os esticos o Homem pode alcanar a verdade e a certeza absolutas e  esta 
segurana que o leva  paz de esprito. Segundo Reale (p. 269), Zeno sentia-se (...) pronto 
para indicar um ideal de felicidade que no a degradasse no prazer (...) um ideal de paz 
espiritual alcanada pela superao do peso e da adversidade das coisas e dos 
acontecimentos exteriores (...) e dos obstculos internos das paixes.
Os esticos deixaram escritos sobre lgica, sensao e representao, linguagem, retrica, 
lgica, fisica, liberdade, alma, tica, antropologia e inspiraram vrios filsofos.
3) O ceticismo  O nome ligado a esta escola  o de Pino, filsofo que participou 
diretamente da expedio de Alexandre, assistindo  transformao
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 Psicologia: Das Razes aos Movimentos Contemporneos
de perto. Seu pensamento, segundo Reale, (1991)  considerado uma filo sofia de ruptura 
 um pensamento que assinala a passagem de um mundo ao outro. Pino situa-se no 
preciso momento em que a conscincia perde algumas verdades e no consegue ainda 
encontrar outras, situando-se no marco zero da verdade.
Pino no deixou nada escrito, mas a essncia de seu pensamento, descrita por Timom, 
aponta para a idia de que quem deseja ser feliz deve entender que as coisas so 
indiferentes, imensurveis e indiscriminveis e, por isso, nem as nossas sensaes, nem as 
nossas opinies podem ser verdadeiras ou falsas Reale, 1991 : 402.
4) O neoplatonismo (cujo nome mais importante  o de Plotino) apoiado, principalmente, 
em Plato afirmava que a alma
 no est no mundo, mas o mundo est nela; pois o corpo
no  lugar para a alma. A alma est na inteligncia e o corpo est
na alma.
Cada uma das escolas filosficas que ia surgindo mostrava-se preocu pada em pensar o 
homem de maneiras particulares. E assim, durante a Antigidade, os filsofos 
preocuparam-se com tica, conhecimento, alma, f, sensaes, prazer e morte.
Segundo Reale, as mensagens dessas Escolas duraram cerca de meio
milnio, quase inintenuptamente, ou seja, muito mais do que as mensagens
de todas as outras escolas.
Elas souberam dizer com uma linguagem clara e acessvel, que fala exatamente  f e  
razo, qual era a justa atitude espiritual a assumir diante das coisas, dos homens e dos 
deuses para poder alcanar a felicidade. Apesar da diversidade das lgicas e das fisicas ou 
mesmo de sua negao ctica, as diferentes escolas estavam de acordo sobre alguns 
princpios morais fundamentais.  esse mesmo fato que explica por que seus fundadores 
foram em certo sentido os santos de uma f e religio leigas.
O cristianismo surgiu no incio desse perodo e com ele a explicao da origem e do destino 
da alma apoiada na convico de uma vida eterna,
conseguida pela vitria sobre o pecado, do ponto de vista da redeno.
A consolidao da cultura ocidental est, ento, sustentada por uma
base estrutural cujos pilares so: o helenismo, o judasmo e o cristianismo.
30
Razes Filosficas e Fisiolgicas da Psicologia
O povo judeu, baseado nos princpios do Velho Testamento, vive no seu ritual cotidiano a 
expresso da esperana no Deus todo poderoso que, ao criar o Universo, escolhe esse povo 
para fazer uma aliana de salvao. Essa idia de salvao tem um carter comunitrio e  
considerada numa perspectiva histrica. Para o judeu no h distino entre corpo e alma.
O povo grego explica o Universo a partir de uma base racional e tem a compreenso de um 
Deus individual. A nfase no dualismo corpo e alma, com a soberania da alma,  sustentada 
mediante um princpio originador e impessoal, ou seja, cada homem responde pessoalmente 
por seu destino.
Por um lado, o paganismo romano, por outro, o politesmo grego, e por, outro ainda, a 
negao do Messias prometido em Jesus Cristo pelos judeus. Essa mistura desordenada de 
culturas, fs e condutas sociais gerou uma necessidade urgente da sistematizao da 
doutrina crist, por meio de mtodos pedaggicos que organizassem o Imprio Romano. 
Esse foi o principal trabalho dos padres durante os quatro primeiros sculos da era crist: 
consolidar o cristianismo no espao geogrfico e nos moldes da administrao do Imprio 
Romano.
Desse modo a igreja, nascida e fortalecida durante a Antigidade,
passa, juntamente com o significado de alma a ela associado e firmado
pelo cristianismo, por deslocamentos conceituais.
A medicina na Antigidade  descrita a partir de uma viso do homem em relao com a 
natureza.  importante citar Hipcrates (460 a.C.-357 a.C.) que, lentamente, foi negando a 
interveno dos deuses ou dos demnios no desenvolvimento da doena e afirmando que as 
perturbaes do corpo, e mesmo as mentais, tinham causas naturais e exigiam tratamento 
especial. Ele apontou o crebro como o centro das atividades intelectuais, assim como 
acentuou o papel da hereditariedade. Prescrevia uma vida em harmonia com a natureza, 
sem excessos, dietas alimentares e exerccios fisicos. Acre ditava na importncia do 
ambiente e considerava o equilbrio dos processos fisiolgicos imprescindvel para o bom 
funcionamento orgnico. Os mdicos gregos e romanos utilizavam como medidas de 
tratamento dietas, massagens, hidroterapia, ginstica, hipnotismo, sangrias e purgaes.
Outro nome importante na medicina foi Galeno (130-200) que
desenvolveu estudos sobre a anatomia do sistema nervoso e conservou uma
31
 Psicologia. Das Razes aos Movimentos C 
atitude cientfica diante da doena dividindo suas causas em fisicas e mentais.
Do ponto de vista da medicina, a Antigidade fica assim marcada pela antecipao de 
muitos dos conceitos atuais sobre a doena.
A construo da histria da vida intrapsiquica estava ainda distante das grandes 
preocupaes sistematizadas de estudo, embora as atenes em relao aos sonhos e seus 
significados e mesmo em relao  loucura apaream como constatao nos regstros 
mdicos.
3.2 Filosofia e Medicina na Idade Mdia
O pensamento, na Idade Mdia (sc. V ao sc. XIV),  contido e sustentado j no mais 
pelas caractersticas de Igreja primitiva, mas por uma lgica institucional que objetivou 
sistematizar a doutrina crist, a fim de firmar a soberania poltico-religiosa romana, e foi, 
exatamente, a doutrina religiosa que apoderou-se dos movimentos culturais e religiosos 
determinando drasticamente as relaes sociais durante alguns sculos.
A Filosofia, suas discusses e exerccios intelectuais sobre a alma
e sobre o homem sobreviveu algemada ao pensamento da Igreja e poucos
pensadores se destacaram por retomar, rediscutir ou valorizar o pensamento
e a cultura at ento desenvolvidos pelos gregos.
Na Idade Mdia crescem a populao, as cidades, as escolas e
evidencia-se a luta pelo poder poltico-econmico apoiada nas bases da
Igreja. A razo  entendida e usada como dom de Deus.
Os nomes que produziram a civilizao na Idade Mdia esto, de
algum modo, ligados ao pensamento religioso, temos como exemplo: So
Geraldo dAvillac (sc. IX), So Francisco de Assis e Santa Clara (sc.
XII) e bispo Maurcio de Sully, construtor da Catedral de Notre Dame
(entre os scs. XI e XII)
Destaca-se Santo Agostinho (354-430) que, na passagem da Antigidade para a Idade 
Mdia, rediscute a alma como a primeira realidade e participante no s do Universo 
sensvel, mas tambm da perfeio da Verdade que na sua preocupao com Deus tende a 
desprender-se dos estmulos enganadores e prazerosos do mundo. A alma  descrita por 
Santo Agostinho como imortal, sua existncia  dirigida por Deus de
32
Razes Filosficas e Fisiolgicas da Psicologia  modo que, apoiada na f e na vontade, 
ela caminha, de grau em grau, na
direo divina.
O pensamento agostiniano domina os sculos posteriores reatuali zando e talvez, segundo 
alguns autores, tentando cristianizar a reminiscncia
platnica.
O papel filosfico tambm est subordinado  teologia, dogmatizando e interpretando a 
Bblia sem, propriamente, criar novas concepes de mundo, mas buscando com intensa 
fora elaborar snteses de pensamentos j existentes.
Com So Toms de Aquilo (1224-1274), h um novo impulso no pensamento. Ao retomar 
a tica aristotlica amoldando-a e adaptando-a aos preceitos cristos, o pensamento tomista 
ir reforar a idia de que a matria corporal no exprime sua marca no intelecto e, 
portanto, no existe sensao sem objeto ou pensamento sem contedo. O dualismo  
superado pela f na unidade alicerada no poder de Deus.
Essas nuanas, rigidamente religiosas, deslocaram o esforo do pensamento que vinha 
sendo desenvolvido, desde os pr-socrticos, limi tando a expresso da compreenso da 
natureza humana, cristalizando-a em fronteiras puramente dogmticas.
Assim tambm aconteceu com a medicina que, na sua prtica, durante
a Idade Mdia, deixou dispersar as contribuies de Hipcrates e Galeno
e logo misturou-se s supersties que envolviam o cotidiano popular,
propiciando um retorno  demonologia. O homem era visto como um local
onde demnios e espritos batalhavam pelo domnio da alma.
A doena mental parece, segundo alguns autores, ter ressurgido na Idade Mdia com maior 
intensidade do que na Antigidade. Ocorriam as loucuras coletivas juntamente com 
epidemias e pestes resultantes da opresso e da fome, que atingiram o seu pice durante os 
sculos XV e XVI.
As formas de tratamento, no caso da doena mental, eram realizadas
por mtodos que podiam ser entendidos por meio do seguinte modelo
de receita:
 vomitrio de tremoo, meimendro negro, alho. Moer juntos, acrescentar cerveja clara e 
gua benta (Cockayne s/d), {...] flagelamentos com aoites, fome, correntes, imerso em 
gua quente [ a fim de tornar o corpo um lugar to desagradvel que
33
Psicologia: Das Razes aos Movimentos Contemporneos
nenhum diabo respeitvel continuaria nele existir. (Coleman,
1973, p. 42)
3.3 Filosofia e Medicina no Renascimento e na Idade Moderna
Com o Renascimento surge urna nova expresso do Universo, atravs da exposio do 
mundo interior humano pela arte, literatura e cincia, expressas de maneira vibrante. 
Busque conhecimentos, por exemplo, sobre Michelngelo, Leonardo DaVinci, 
Shakespeare, Cervantes, Cames, Giordano Bruno e Paracelso, todos desse perodo.
Para ns, estudiosos da Psicologia, nesse momento encontramos as
estruturas concretas que garantiro o surgimento desta cincia um pouco
mais tarde.
No sculo XVII aconteceu uma exploso de conhecimentos. A rea da Fsica (com Galileu 
e Newton) determinou que o Universo era formado por partculas em movimento, 
reforando o pensamento mecanicista que se impunha com coerncia e fora de 
comprovao. O Universo como um todo, incluindo o homem,  percebido sob a ao das 
leis mecnicas e sujeito a mensurao.
Iremos destacar dois dos grandes filsofos desse perodo: Francis
Bacon (1561-1626) e Ren Descartes (1596-1650).
Bacon, que  assim reconhecido em seu pensamento registrado em
De dignitate et augmentis scientiarum, VII, 2:
Os filsofos se esforaram por tornar a alma por demais
uniforme e por demais harmnica, mas nada fizeram para
acostum-la aos movimentos contrrios.
Considerado o pensador do Renascimento e o representante tpico da poca dos 
descobrimentos, Bacon pensa que para descobrir algo  preciso que o homem conhea e 
que a aquisio do conhecimento ir se processar por intermdio da experincia, na 
imperfeio dos sentidos. Ressalta que observao, comparao, repetio de vivncias e 
anlise unem razo e experincia na direo do conhecimento.
34
Razes Filosficas e Fisiolgicas da Psicologia  Ren Descartes, tambm desse perodo, 
foi o filsofo que, mais do que
qualquer outro, libertou a investigao e o prprio pensamento dos dogmas teolgicos e 
tradicionais rgidos que tinham dominado o pensamento durante sculos. Descartes 
representou a passagem da Renascena para o perodo moderno da cincia e, de acordo 
com alguns autores, representou tambm os primrdios da Psicologia moderna. Assim 
falou Descartes em Deuxime Mditation:
 aps muito pensado e ter cuidadosamente examinado todas as coisas, cumpre finalmente 
concluir e ter como constante que esta proposio: eu sou, eu existo   necessariamente 
verda deira sempre que enuncio ou a concebo no esprito.
O pensamento cartesiano aponta para uma viso dividida do homem. Na verdade, ele 
apresentou algo novo, pois, at ento, entendia-se que o corpo inferia na existncia da alma 
e de Deus. Descartes dizia que era possvel duvidar do corpo e do mundo, mas no se 
poderia, em hiptese alguma, duvidar do pensamento. Nada, nenhuma fora poderia 
impedir que o sujeito existisse, enquanto fosse capaz de pensar.
Desse modo, apreende-se, do pensamento cartesiano, que o corpo  um conjunto de 
reflexos  viso mecanicista que dominava o novo tempo no qual ele vivia  o que, de 
certa forma, rebate a idia de soberania da alma sobre o corpo. O corpo, composto de 
matria fisica  regido pelas leis da fisca e da mecnica, 
um sistema fechado de movimentos mecnicos, cujo princpio fisico  uma espcie de calor 
que faz circular o sangue. Os espritos animais que, fluindo sobre os nervos, de forma 
regulada pelo crebro, transmitem as sensaes; essas, ligadas aos nervos motores por meio 
de vlvulas, produzem reflexos motores nos msculos, por intermdio dos espritos 
mencionados. (Rosenfeld, 1993, p. 61)
Descartes apontou para uma abordagem que desfoca a ateno do estudo da alma para o 
estudo das operaes mentais realizadas pela mente, ou seja, a capacidade de pensar  o 
ponto central da mente, que  imaterial e inextensa.
35
- Psicologia: Das Razes aos Movimentos Contemporc
Segundo Schultz (1992, p. 40):
A mais importante obra de Descartes, do ponto de vista do desenvolvimento futuro da 
Psicologia, foi a sua tentativa de resolver o problema corpo-mente, que era uma questo 
controvertida h sculos. Ao longo dos tempos, os pensadores tinham indagado como a 
mente, ou quaisquer qualidades puramente mentais, poderia distinguir-se do corpo e de 
todas as outras qualidades fisicas.
A questo bsica e enganadoramente simples  esta: a mente
e o corpo o mundo mental e o mundo materialso duas essncias
ou naturezas totalmente diferentes?
Embora a inegvel dicotomia proposta por Descartes, a idia inovadora era a de que mente 
e corpo, mesmo de naturezas distintas e separadas, sofrem um processo de interao no 
organismo influenciando-se mutuamente. Se a mente possui capacidade de perceber e 
querer, de alguma maneira ela deve influenciar e ser influenciada pelo corpo. Para que 
essas duas instncias, totalmente diferentes, pudessem interagir era necessrio encontrar, no 
crebro, um ponto de interao. A nica estrutura unitria era a glndula pineal  ela seria 
ento o local onde as funes mentais (pensamento, percepo, memria, etc.) estariam 
alojadas. A mente est ligada a todas as parte do corpo, mas sua nica funo  gerar idias.
A diviso corpo-mente, sedimentada na filosofia cartesiana, influen ciou o desenvolvimento 
posterior da cincia e, com relao  Psicologia,  interessante apontar a forma como 
Descartes formulou o processo em que as idias so geradas.
Primeiramente, ele descreve uma categoria de idias que se forma a partir da estimulao 
dos nervos. Ao produzirem na glndula pineal uma impresso, geram uma idia, ou seja, o 
pensamento forma-se a partir da aplicao direta de um estmulo externo. Essa seria a 
descrio da formao de idias adquiridas.
A outra categoria refere-se s idias inatas, que no so produzidas por sensaes e cuja 
fonte  a prpria mente, o que significa dizer que elas existem potencialmente no mundo 
mental e so reconhecidas pela experincia sensorial. So idias abstratas, tais como a 
noo de infinito, a
36
Razes Filosficas e Fisiolgicas da Psicologia  idia de Deus, a perfeio, os axiomas 
geomtricos, etc. Segundo Schultz
(1992, p. 43):
A obra de Descartes serviu como o mais importante catali sador para muitas tendncias 
que seriam depois predominantes na Psicologia. As suas concepes sistemticas de maior 
importncia so a concepo mecanicista do corpo, a teoria de interacionismo mente-corpo, 
a localizao das funes mentais no crebro e a doutrina das idias inatas.
Depois de Descartes, o pensamento cientfico moderno desenvol veu-se com muita rapidez. 
No final do sculo XVII e incio do sculo XVIII surgiram novas vertentes de pensamento, 
tais como o positivismo, o materialismo e o empirismo. Interessa-nos, particularmente, o 
pensamento empirista, pois esse grupo de filsofos estava:
 em grande atividade sobretudo na Inglaterra [ A concepo do homem sobre si mesmo e o 
mundo que o cerca estava mudando rapidamente [ a discusso dos fenmenos psicolgicos 
estava comeando a ser conduzida dentro de um quadro de referncia constitudo por 
provas factuais, observacionais e quantitativas, baseadas na experincia sensorial. 
Focalizava-se mais os processos fisiolgicos envolvidos no funcionamento mental [ 
(Schultz, 1995, p. 42)
O principal empirista foi John Locke (1632-1704) e a sua mais importante obra para a 
Psicologia foi Ensaio acerca do entendimento humano, publicada em 1690 e escrita ao 
longo de vinte anos. Essa obra se tornou material clssico traduzido para o francs e o latm 
e em 1700 j estava na 4 edio, pontuando o incio formal do empirismo ingls.
A preocupao intelectual de Joim Locke era como a mente adquire conhecimento. Ele 
nega a existncia das idias inatas, discutindo que o homem, ao nascer, no possui nenhum 
conhecimento. Mesmo que, aparentemente, algumas idias paream fazer parte 
constitucional da mente humana, elas so, na verdade, fruto de aprendizagem. O que 
equivale dizer que o desenvolvimento da mente acontece pelo acmulo de experincias 
sensoriais, portanto, da experincia.
37
 Psicologia: Das Raizes aos Movimentos contemporneos
Veja como Locke organizou sua concepo acerca da aquisio do
conhecimento em seu Ensaio:
Suponhamos, pois, que a mente , como dissemos, um papel em branco, desprovido de 
todos os caracteres, sem quaisquer idias: Como ser ele suprido? De onde lhe provm esse 
vasto estoque que a ativa e ilimitada fantasia do homem pintou nele com uma variedade 
quase infinita? De onde apreende todos os materiais da razo e o conhecimento? A isso 
respondo numa palavra: da EXPERINCIA. Todo o nosso conhecimento est nela 
fundado, e dela deriva fundamentalmente o prprio conhecimento. Empregada tanto nos 
objetos sensveis externos como nas operaes internas de nossas mentes, que so por ns 
mesmos percebidas e refletidas, a nossa observao supre nossos entendimentos com todos 
os materiais do pensamento. Dessas duas fontes de conhecimento, a sensao e a reflexo, 
jorram todas as nossas idias.
H ento, para Locke, duas diferentes espcies de experincias: uma derivada da sensao e 
outra da reflexo, ou seja, alm da ao das sensaes sobre a mente, o funcionamento da 
prpria mente  reflexo  pode dar origem a idias. No existe, porm, reflexo sem que 
a experincia sensorial tenha previamente ocorrido, pois para que o processo de reflexo 
acontea ser necessrio que o sujeito tenha guardado um nmero significativo de 
impresses sensoriais tomando a mente apta a refletir. Na reflexo, o indivduo recorda 
impresses sensoriais passadas, rearranjadas em novas formas e esse movimento gerar 
idias. O empirismo determinou as posies metodolgicas iniciais da Psicologia.
O sculo XVII foi marcado por uma caracterstica que era a tenso entre opostos 
irreconciliveis. Podemos perceb-la em vrios contextos:
por um lado o Renascimento propriamente e por outro a fora da recluso Religiosa. Por 
um lado as artes e por outro a vaidade, as guerras e as diferenas de classes.
O Barroco surge como uma forma de trabalho em que as estruturas so escondidas sob os 
omamentos, assim como  poltica ostensiva subjaziam as conspiraes. A vida  teatro e o 
teatro moderno surge com Shakespeare. E se o pensamento emprico era forte, no era o 
suficiente para impedir
38
Razes Filosficas e Fisiolgicas da Psicologia
que formas novas e flexveis de compreenso da natureza humana fossem se 
desenvolvendo.
Desponta, ento, Baruch Spinosa (1632-1677), um filsofo que
empregando o mtodo geomtrico  aqui referindo-se  linguagem ou
a formas de representao  criticou a religio e a forma de leitura da
Bblia e buscou mostrar que o homem  regido pelas leis da natureza e que precisa ser livre 
de sentimentos e de emoes para ser feliz e poder viver em paz.
Monista, Spinoza atribuiu toda a natureza e todas as relaes de vida a uma mesma e nica 
substncia. Em tica, II, prop. XLIX, corolrio:
A vontade e a inteligncia so uma e a mesma coisa , viso que aponta para o homem 
interior.
Nessa mesma linha  possvel apontar o pensamento de Gottfried Leibniz (1646 1716). 
Leibniz entendeu que toda realidade  de ordem espiritual. Para este filsofo, deve-se 
imaginar que a vida mental  conhecimento e vontade, O que  material pode ser 
decomposto em unidades cada vez menores, mas a alma no pode ser decomposta. 
Precursor da dialtica moderna e da teoria evolucionista, Leibniz v um homem inquieto 
diante da realidade e de si mesmo.
Em Nouveaux essais, liv. II, cap. XXI,  6 ele diz:
A inquietude  o aguilho principal, para no dizer o
nico, que excita a indstria e a atividade do Homem.
Essa excitao diante da vida  determinada fortemente por uma quantidade de informaes 
nem sempre conhecidas pelo sujeito. No prefcio dos seus Nouveaux essais ele aponta que 
pequenas percepes determinam
 em muitas oportunidades, sem que pensemos nisso, e iludem o vulgo com a aparncia de 
uma indiferena de equilbrio, como se nos fosse indiferente, por exemplo, virar para a 
direita ou para a esquerda.
 da sua filosofia complexa que nasce a concepo sobre a atividade
mental, sobre o papel da ateno no estado de viglia, necessrio para a
39
 Psicologia: Das Razes aos Movimentos contemporneos  captao da realidade. 
Leibniz aponta para um estado de percepo no- consciente que ele denomina de 
pequenas percepes ou apercepes, que seriam
 percepes insensveis, que no so percebidas e que prefiro chamar de apercepes a 
chamar de volies [ pois no se chamam aes voluntrjas seno as que a gente pode se 
aperceber e sobre as quais  possvel recair nossa reflexo [ Nouveaux essais liv. II, Cap. 
XXI,  5
Seus pensamentos abrem perspectivas de novas formas de
compreenso do hbito, da memria, da razo, da imaginao. Podemos
apreender de suas idias que
 o Homem no  simplesmente o local dos atos. A pessoa  a fonte de atos [ para conhecer 
o que urna pessoa , toma-se necessrio sempre consultar o que ela pode ser no futuro, pois 
todo estado da pessoa  apontado na direo de possibilidades futuras (Forisha, 1978, p. 
32)
Entre tantos outros importantes filsofos, Locke, Spinosa e Leibniz apontam para vises de 
homem e de mundo praticamente antagnicas. Pelo lado de Locke, o homem nasce vazio e 
ao ser bombardeado por estimulaes sensoriais ir escrevendo sua histria de 
conhecimento. Pelo lado de Spinosa e Leibniz, o homem traz uma estrutura independente e 
dinmica dentro de si, sendo que essa estrutura  nica e preexiste  estimulao.
Se do ponto de vista da Filosofia fica evidente a preocupao com o conhecimento e com o 
livre-arbtrio, a Medicina, durante esses sculos, apesar de voltada para numerosas 
pesquisas fisiolgicas, ainda encontrava obstculos concretos para uma prtica mais 
humanitria.
A verdade  que as pesquisas facilitavam, em certa medida, que a demonologia 
caracterstica da Idade Mdia pudesse ser revista, permitindo que os mosteiros e as prises 
que recolhiam os doentes, especialmente os mentais, comeassem a distribui-los em asilos. 
Ainda assim o doente, em todas as partes do mundo, vivia sua institucionalizao em 
condies deplorveis.
40
 Razes Filosficas e Fisiolgicas da Psicologia
Durante os sculos XVI, XVII e XVIII diversos hospitais para abrigar e cuidar dos doentes 
mentais foram construdos em Londres, nos subrbios de Paris, em Moscou e Viena. Todos 
eles tinham um padro semelhante de tratamento que envolvia confinamento, exibio ao 
pblico, camisas de-fora, correntes, imerses em gua fria que duravam at seis horas, 
sangria, purgao etc. Somente com o desenvolvimento da moderna cincia experimental 
foi possvel a lenta humanizao e aplicao de tcnicas cientficas nos tratamentos, 
processo que teve incio na Frana e na Inglaterra, estendendo-se, um pouco mais tarde, at 
os Estados Unidos.
O cenrio intelectual propiciava a busca de compreenses mais sistematizadas sobre o 
homem e seu funcionamento fisico e mental.
41
